sábado, 6 de agosto de 2011

Finitude


"Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé, mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como “freudiano barbaridade”. E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço.
Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório a primeira coisa que o analista de Bagé faz é lhe dar um joelhaço. Em paciente homem, claro, pois em mulher, segundo ele, “só se bate pra descarrega energia”. Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.
― Te abanca, índio velho, que tá incluído no preço.
― Ai ― diz o paciente.
― Toma um mate?
― Nã-não... ― geme o paciente.
― Respira fundo, tchê. Enche o bucho que passa.
O paciente respira fundo. O analista de Bagé pergunta:
― Agora, qual é o causo?
― É depressão, doutor.
O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro.
― Tô te ouvindo ― diz.
― É uma coisa existencial, entende?
― Continua, no más.
― Começo a pensar, assim, na fìnitude humana em contraste com o infinito cósmico...
― Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.
― E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.
― Pos vamos dar um jeito nisso agorita ― diz o analista de Bagé, com uma baforada.
― O senhor vai curar a minha angústia?
― Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.
― Mudar o mundo?
― Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.
― Mas... Isso é impossível!
― Ainda bem que tu reconhece, animal!
― Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.
― Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.
― Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta...
― Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?
― Me alimento.
― Tem casa com galpão?
― Bem... Apartamento.
― Não é veado?
― Não.
― Tá com os carnê em dia?
― Estou.
― Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.
― O Freud não me diria isso.
― O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?
― Não.
― Então te fecha. E olha os pés no meu pelego.
― Só sei que estou deprimido e isso é terrível. É pior do que tudo.
Aí o analista de Bagé chega a sua cadeira para perto do divã e pergunta:
― É pior que joelhaço?"

(VERÍSSIMO, Luis Fernando. Todas as Histórias do Analista de Bagé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 15-7)

domingo, 4 de julho de 2010

(based on nothing)


"People ask me about the name. "Thom Pain." I don't answer. Or I say, "It's been in the family a while." Or I say, "Child Harold," for no reason. Then one of us walks away.

Anyway, the boy lay down behind the dog, holding her. He closed his own eyes with his fingers. The boy lay in a puddle behind his former dog, whispering, "I do. I do." He came home later, without stick or dog. No one noticed him, the change in him. The boy got some scissors and cut his hair half-off. He drew a simple bone on his stomach with some of his mother's lipstick. He tucked himself badly into bed. He sang a little song without words or tune. He lay there, awake, breathing too much, biting a crayon, trying to hold everything in. The boy smelled of dead wet dog. His legs shook and he wet his bed. (Brief pause.) This all being an example of - I don't know - how some days can go, of actual life, of the close relations between man and animal.

Now, imagine a pink elephant. Now, stop.

(Pause.)

Good. Wait a minute? There. Thank you, sir.

(Pause.)

(With earnest enthusiasm.) Now I think would be a good time for the raffle. I hope you held on to your tickets, on the back of which is a number. We have some very nice prizes. (He checks around the stage, seeming to get ready for the raffle, looking back to the booth, etc.)

All right, are you ready? Okay. Here we go. Who has the luck with him tonight? This'll be fun.

(Pause. Simply but somewhat gravely.)

There is no raffle. Who said there was going to be a raffle? The good news is, you didn't lose. You lost nothing except the time it took to find this out. Which is a pretty big chunk. Someday, some minute, you'll have thirty seconds to live. Think of me, my little comic bit about the raffle. Think of me, fucking around with your life, and try to smile."

(ENO, Will. Thom Pain (based on nothing). New York: Dramatists Play Service Inc., 2005. p. 12-3)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morte


"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. Sangue, porém, houve-o, e não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados aos hospitais, ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas pessoas morreria no caminho e todas iriam desmentir os mais pessimistas prognósticos médicos, Esse pobre diabo não tem remédio possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara. Realmente, talvez não houvesse salvação para o coitado no dia anterior, mas o que estava claro é que a vítima se recusava a morrer neste. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. Até à meia-noite em ponto do último dia do ano ainda houve gente que aceitou morrer no mais fiel acatamento às regras, quer as que se reportavam ao fundo da questão, isto é, acabar-se a vida, quer as que atinham às múltiplas modalidades de que ele, o referido fundo da questão, com maior ou menor pompa e solenidade, usa revestir-se quando chega o momento fatal. Um caso sobre todos interessante, obviamente por se tratar de quem se tratava, foi o da idosíssima e veneranda rainha-mãe. As vinte e três horas e cinquenta e nove minutos daquele dia trinta e um de dezembro ninguém seria tão ingénuo que apostasse um pau de fósforo queimado pela vida da real senhora. Perdida qualquer esperança, rendidos os médicos à implacável evidência, a família real, hierarquicamente disposta ao redor do leito, esperava com resignação o derradeiro suspiro da matriarca, talvez umas palavrinhas, uma última sentença edificante com vista à formação moral dos amados príncipes seus netos, talvez uma bela e arredondada frase dirigida à sempre ingrata retentiva dos súbditos vindouros. E depois, como se o tempo tivesse parado, não aconteceu nada. A rainha-mãe nem melhorou nem piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe por que estranho capricho, continuava a segurar. Já tínhamos passado ao dia seguinte, e nele, como se informou logo no princípio deste relato, ninguém iria morrer"

(SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 11-2.)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Erradicando o analfabetismo


"Tudo nesse mundo deveria chamar-se pulôver. Lógico que não através de uma emenda incostitucional, assim, da noite pro dia. Mas aos poucos como uma carícia num lóbulo. Então progressivamente o pulôver iria tomando conta das frases:

- E aí, rapaz?! Que pulôver te ver!
- E tu! Como é que pulôver?!
- Pu-lô-ver! Pulôver direto... puloverzão... e tu?
- Pô, cara, a minha mãe pulôver...
- Que pulôver... Mas, ó: pulôver pra frente... Não pode deixar o pulôver cair...
- É, cê que tá pulôver... E aí? Um puloverzinho dia desses?
- Com pulôver!
- Mas ó! Não é papo de pulôver não, hein! Me pulôver mesmo!

Imagine que mundo maravilhoso! Em primeiro lugar, findariam os problemas da comunicação. Em segundo, erradicaríamos o analfabetismo... Agora, é claro que pulôver é só uma idéia - e que traria problemas pra alguém que efetivamente fosse comprar um pulôver... Mas poderíamos fazer um plebicito:

- E aí, rapaz?! Que bunda te ver!
- E tu! Como é que bunda?!
- Bun-da! Bundando direto... bundão... e tu?
- Pô, cara, a minha mãe bunda...
- Que bunda... Mas, ó: bunda pra frente... Não pode deixar a bunda cair...

Imagine que mundo maravilhoso! Em primeiro lugar, findariam os problemas da comunicação. Em segundo, erradicaríamos o analfabetismo... Agora, é claro que bunda é só uma idéia - e que traria problemas pra alguém que efetivamente fosse comprar uma bunda... Mas poderíamos fazer um plebicito:

- E aí, rapaz?! Que morreu te ver!
- E tu! Como é que morreu?!
- Mor-reu! Morrendo direto... mortinho... e tu?
- Pô, cara, a minha mãe morreu..."

(MELAMED, Michel. Regurgitofagia. Rio de Janeiro, 2005. p. 57)

sábado, 22 de maio de 2010

Só o silêncio


"Uma noite Eduardo convidou-o para jantar. Germano despiu pela primeira vez o pijama, barbeou-se, penteou-se, vestiu-se elegantemente — paletó mescla e calça listrada — e cruzou a rua.
Antes de se sentarem à mesa, já se fizera amigo de Antonieta:
— Essa palhacinha finge que não sabe as coisas — dizia, entusiasmado — mas acho que sabe mais do que nós dois. Quer ver?
Para Antonieta:
— Que dia é hoje, palhaça?
— Dia 15.
Para Eduardo:
— Você sabia que hoje era dia 15?
— Não...
— Eu não disse? — e de novo para Antonieta: — Que dia da semana?
— Segunda-feira.
— De que cor?
— Segunda-feira? Acho que cinzenta...
— Isso mesmo! Às vezes é branca. E terça-feira?
— Verde?
— Não! Verde é quinta-feira. Terça-feira é amarela. Quarta-feira é marrom. E sexta-feira é engraçado: muita gente pensa que é alaranjada, e no entanto não é: é cor-de-rosa, você sabia?
— Cor-de-rosa não é domingo, não? — perguntou ela.
— Não: domingo é outra cor, vamos ver se você descobre.
— Vermelho — arriscou Eduardo.
— Cala a boca. Você não sabe nada. Vamos, menina!
— Dourado! — concluiu Antonieta.
— Isso! — e o velho se ergueu, beijou-a na face, contente como um professor: — E sábado é azul. É o ouro sobre o azul. Findo o jantar Eduardo preparou-lhe um uísque — comprara uma garrafa especialmente para ele.
— Sabe, Germano? — comentou, enquanto servia: — Essa história das cores dos dias da semana é interessante, mas Rimbaud fez melhor: descobriu as cores das vogais.
Germano o olhou, cauteloso:
— Quem? o Poetinha?
— Poetinha? Você chama Rimbaud de poetinha? Aos dezessete anos era um dos casos mais sérios da literatura.
— Não se é sério quando se tem dezessete anos.
— Mas isso é justamente um verso dele! — exclamou Eduardo, admirado. — “On n'est pas serieux quand on a dix-sept ans”.
— Está vendo? — o velho se voltou, vitorioso: — Não precisa traduzir que eu sei francês.
E se levantou, despedindo-se:
— Preciso ir embora, me levanto muito cedo. Tem um bem-te-vi que me acorda toda madrugada. Posso levar a garrafa?
Empunhou a garrafa de uísque e abraçou-se a Eduardo:
— Vamos fazer as pazes? Tem domingo vermelho, sim. Especialmente na Espanha.
Antes de sair, voltou-se para Antonieta:
— Ia lhe dizer agora uma coisa muito importante. Mas é tão importante que prefiro não dizer. Só é sincero aquilo que não se diz. Boa noite.
— Então isso também não é sincero — sorriu ela.
— Também não. Só o silêncio é sincero. [...]"

(SABINO, Fernando. O Encontro Marcado. 85ª edição. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1956. p. 205-7)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Que seja doce!


"TENHO um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma como precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Isso me pareceu grandiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.

Estou me confundindo, estou me dispersando.

O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora a ponto de convencê-lo a voltar, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante."

[...]

(ABREU, Caio Fernando. Os dragões não conhecem o paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 147).

domingo, 11 de outubro de 2009

Lambo ou não lambo?


"Lomagno no início estava muito perturbado; no fim, muito tranqüilo. Acostumara-se com a mentira que lhe dizia, ou com a verdade? A história do macumbeiro talvez fosse verdadeira. E também o que Lomagno lhe dissera sobre Alice. Essa reflexão fazia-lhe doer o estômago e o coração, prejudicava-lhe o raciocínio, impedia que o tira pensasse com clareza no papel do – Gregório ainda não, ainda era cedo! – do misterioso homem negro. Alice doente mental. Ele não percebera isso quando haviam estado juntos. Como uma pessoa tão bonita podia ser doente? Não, ele não teria a lucidez prejudicada por dúvidas impertinentes: o negro era Gregório, cada vez tinha mais certeza disso. O F de Fortunato gravado no anel de ouro. Então ele, que gostava de repetir a máxima de Diderot de que o ceticismo era o primeiro passo em direção à verdade, estava agora cheio de certezas? Novamente a doença de Alice. Alice. Lembrou-se da irmã de sua mãe, que não era boa da cabeça, contando para ele – quando fora mesmo? – que vira um escarro na calçada e quedara-se repetindo mentalmente "lambo ou não lambo?" Sabendo que na história da sua família havia vários loucos, considerava possível sofrer, também ele, um surto psicótico. Possível, mas não provável. De qualquer maneira esperava não vir a ter um impulso incoercível de lamber o catarro de alguém na calçada."

(FONSECA, Rubem. Agosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 189).