"Uma noite Eduardo convidou-o para jantar. Germano despiu pela primeira vez o pijama, barbeou-se, penteou-se, vestiu-se elegantemente — paletó mescla e calça listrada — e cruzou a rua.
Antes de se sentarem à mesa, já se fizera amigo de Antonieta:
— Essa palhacinha finge que não sabe as coisas — dizia, entusiasmado — mas acho que sabe mais do que nós dois. Quer ver?
Para Antonieta:
— Que dia é hoje, palhaça?
— Dia 15.
Para Eduardo:
— Você sabia que hoje era dia 15?
— Não...
— Eu não disse? — e de novo para Antonieta: — Que dia da semana?
— Segunda-feira.
— De que cor?
— Segunda-feira? Acho que cinzenta...
— Isso mesmo! Às vezes é branca. E terça-feira?
— Verde?
— Não! Verde é quinta-feira. Terça-feira é amarela. Quarta-feira é marrom. E sexta-feira é engraçado: muita gente pensa que é alaranjada, e no entanto não é: é cor-de-rosa, você sabia?
— Cor-de-rosa não é domingo, não? — perguntou ela.
— Não: domingo é outra cor, vamos ver se você descobre.
— Vermelho — arriscou Eduardo.
— Cala a boca. Você não sabe nada. Vamos, menina!
— Dourado! — concluiu Antonieta.
— Isso! — e o velho se ergueu, beijou-a na face, contente como um professor: — E sábado é azul. É o ouro sobre o azul. Findo o jantar Eduardo preparou-lhe um uísque — comprara uma garrafa especialmente para ele.
— Sabe, Germano? — comentou, enquanto servia: — Essa história das cores dos dias da semana é interessante, mas Rimbaud fez melhor: descobriu as cores das vogais.
Germano o olhou, cauteloso:
— Quem? o Poetinha?
— Poetinha? Você chama Rimbaud de poetinha? Aos dezessete anos era um dos casos mais sérios da literatura.
— Não se é sério quando se tem dezessete anos.
— Mas isso é justamente um verso dele! — exclamou Eduardo, admirado. — “On n'est pas serieux quand on a dix-sept ans”.
— Está vendo? — o velho se voltou, vitorioso: — Não precisa traduzir que eu sei francês.
E se levantou, despedindo-se:
— Preciso ir embora, me levanto muito cedo. Tem um bem-te-vi que me acorda toda madrugada. Posso levar a garrafa?
Empunhou a garrafa de uísque e abraçou-se a Eduardo:
— Vamos fazer as pazes? Tem domingo vermelho, sim. Especialmente na Espanha.
Antes de sair, voltou-se para Antonieta:
— Ia lhe dizer agora uma coisa muito importante. Mas é tão importante que prefiro não dizer. Só é sincero aquilo que não se diz. Boa noite.
— Então isso também não é sincero — sorriu ela.
— Também não. Só o silêncio é sincero. [...]"
(SABINO, Fernando. O Encontro Marcado. 85ª edição. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1956. p. 205-7)
Um comentário:
Nem com 17, nem com 107!
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