domingo, 11 de outubro de 2009

Lambo ou não lambo?


"Lomagno no início estava muito perturbado; no fim, muito tranqüilo. Acostumara-se com a mentira que lhe dizia, ou com a verdade? A história do macumbeiro talvez fosse verdadeira. E também o que Lomagno lhe dissera sobre Alice. Essa reflexão fazia-lhe doer o estômago e o coração, prejudicava-lhe o raciocínio, impedia que o tira pensasse com clareza no papel do – Gregório ainda não, ainda era cedo! – do misterioso homem negro. Alice doente mental. Ele não percebera isso quando haviam estado juntos. Como uma pessoa tão bonita podia ser doente? Não, ele não teria a lucidez prejudicada por dúvidas impertinentes: o negro era Gregório, cada vez tinha mais certeza disso. O F de Fortunato gravado no anel de ouro. Então ele, que gostava de repetir a máxima de Diderot de que o ceticismo era o primeiro passo em direção à verdade, estava agora cheio de certezas? Novamente a doença de Alice. Alice. Lembrou-se da irmã de sua mãe, que não era boa da cabeça, contando para ele – quando fora mesmo? – que vira um escarro na calçada e quedara-se repetindo mentalmente "lambo ou não lambo?" Sabendo que na história da sua família havia vários loucos, considerava possível sofrer, também ele, um surto psicótico. Possível, mas não provável. De qualquer maneira esperava não vir a ter um impulso incoercível de lamber o catarro de alguém na calçada."

(FONSECA, Rubem. Agosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 189).

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