"Tudo nesse mundo deveria chamar-se pulôver. Lógico que não através de uma emenda incostitucional, assim, da noite pro dia. Mas aos poucos como uma carícia num lóbulo. Então progressivamente o pulôver iria tomando conta das frases:
- E aí, rapaz?! Que pulôver te ver!
- E tu! Como é que pulôver?!
- Pu-lô-ver! Pulôver direto... puloverzão... e tu?
- Pô, cara, a minha mãe pulôver...
- Que pulôver... Mas, ó: pulôver pra frente... Não pode deixar o pulôver cair...
- É, cê que tá pulôver... E aí? Um puloverzinho dia desses?
- Com pulôver!
- Mas ó! Não é papo de pulôver não, hein! Me pulôver mesmo!
Imagine que mundo maravilhoso! Em primeiro lugar, findariam os problemas da comunicação. Em segundo, erradicaríamos o analfabetismo... Agora, é claro que pulôver é só uma idéia - e que traria problemas pra alguém que efetivamente fosse comprar um pulôver... Mas poderíamos fazer um plebicito:
- E aí, rapaz?! Que bunda te ver!
- E tu! Como é que bunda?!
- Bun-da! Bundando direto... bundão... e tu?
- Pô, cara, a minha mãe bunda...
- Que bunda... Mas, ó: bunda pra frente... Não pode deixar a bunda cair...
Imagine que mundo maravilhoso! Em primeiro lugar, findariam os problemas da comunicação. Em segundo, erradicaríamos o analfabetismo... Agora, é claro que bunda é só uma idéia - e que traria problemas pra alguém que efetivamente fosse comprar uma bunda... Mas poderíamos fazer um plebicito:
- E aí, rapaz?! Que morreu te ver!
- E tu! Como é que morreu?!
- Mor-reu! Morrendo direto... mortinho... e tu?
- Pô, cara, a minha mãe morreu..."
(MELAMED, Michel. Regurgitofagia. Rio de Janeiro, 2005. p. 57)
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